Por que as reservas estratégicas de petróleo dos EUA estão no nível mais baixo desde 1983 e como isso influi no acordo com a Venezuela

Um trabalhador do setor de petróleo, de camisa verde e capacete laranja, caminha ao lado de uma tubulação da Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Os Estados Unidos recorrem ao petróleo armazenado na reserva estratégica em situações excepcionais
    • Author, Ángel Bermúdez
    • Role, BBC News Mundo
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  • Tempo de leitura: 7 min

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pretende usar o petróleo que o país passará a receber da Venezuela para abastecer a Reserva Estratégica de Petróleo (conhecida como SPR na sigla em inglês).

No domingo (30/8), dois dias depois de anunciar "o maior acordo de petróleo da história" com o governo interino da Venezuela, país atualmente presidido por Delcy Rodríguez, Trump afirmou que usará o petróleo venezuelano para reabastecer a Reserva Estratégica de Petróleo. Segundo o presidente americano, a reserva está "praticamente vazia" por culpa de seu antecessor na Casa Branca [Joe Biden].

Dados do Departamento de Energia dos EUA indicam que, em 21/8, a Reserva Estratégica de Petróleo tinha cerca de 298,7 milhões de barris, o equivalente a 42% de sua capacidade total, estimada em 714 milhões de barris.

É o menor volume registrado pela Reserva Estratégica de Petróleo desde janeiro de 1983, quando havia cerca de 300 milhões de barris.

Com o acordo feito com Rodríguez, os EUA terão controle majoritário sobre campos de petróleo venezuelanos com reservas com cerca de 65 bilhões de barris.

Esse volume equivale a 141% das reservas comprovadas de petróleo bruto dos EUA, que somavam 46 bilhões de barris no fim de 2024, segundo a Administração de Informação Energética dos EUA (EIA, na sigla em inglês).

São consideradas "reservas comprovadas" as jazidas de petróleo já descobertas, mas ainda não exploradas, cuja extração é considerada economicamente viável com as tecnologias existentes.

Já a Reserva Estratégica de Petróleo contém petróleo que foi extraído e está armazenado.

A seguir, a BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, explica o que é essa reserva e por que seu nível caiu nos EUA.

Combustível para emergências

Motorista empurra um carro em direção a um posto de combustível durante a 
a crise do petróleo de 1973 e 1974, em Roslindale, Boston, no Estado de Massachusetts, nos EUA, em 1973

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Legenda da foto, A crise do petróleo de 1973 e 1974 provocou longas filas nos postos de combustíveis, em meio à escassez e à alta dos preços

A Reserva Estratégica de Petróleo é uma enorme reserva de petróleo criada na década de 1970, depois da crise econômica provocada pelo embargo imposto por países árabes a governos ocidentais que apoiaram Israel durante a Guerra do Yom Kippur (1973).

Com a interrupção do fornecimento, o preço do petróleo quadruplicou até 1974, e os EUA enfrentaram escassez de combustível.

A população teve de enfrentar longas filas para abastecer os carros.

A alta do petróleo também atingiu fortemente a indústria americana, que dependia de combustível barato.

Para evitar que situações semelhantes voltassem a ocorrer, a Reserva Estratégica de Petróleo foi criada em 1975, com o objetivo de proteger os EUA das oscilações do mercado mundial e de eventuais problemas no abastecimento.

A Reserva Estratégica de Petróleo foi usada durante a Guerra do Golfo, em 1991, e após o furacão Katrina, em 2005. Os danos causados pelo furacão à infraestrutura energética dos EUA levaram o governo a recorrer ao petróleo armazenado na reserva para compensar a redução no fornecimento.

Sal e petróleo

Uma enorme caverna subterrânea de sal

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Legenda da foto, O petróleo da reserva estratégica é armazenado em cavernas subterrâneas escavadas em formações de sal

O petróleo da Reserva Estratégica de Petróleo fica armazenado em um sistema de 60 cavernas subterrâneas, escavadas em formações de sal, que se estendem de Baton Rouge, na Louisiana, a Freeport, no Texas, região sul do país.

Como o sal e o petróleo não se misturam, essas formações funcionam como reservatórios ideais.

Segundo o Departamento de Energia dos EUA, a reserva foi projetada originalmente para armazenar pelo menos 750 milhões de barris de petróleo bruto, mas sua configuração atual permite que ela guarde até 714 milhões de barris.

Na superfície, há pouco para ver: apenas algumas saídas de poços e tubulações.

No subsolo, os dutos se estendem por milhares de metros. Para retirar o petróleo, a água é injetada sob alta pressão nas cavernas, deslocando o combustível para a superfície.

Por que o nível da reserva caiu?

Joe Biden faz um discurso. Ele veste terno escuro, camisa clara e gravata vermelha

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Legenda da foto, Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, Biden autorizou a retirada de 180 milhões de barris de petróleo da reserva estratégica

A Reserva Estratégica de Petróleo funciona como um estoque de emergência ao qual o governo dos EUA recorre em períodos de crise.

Além de liberar parte do petróleo durante a Guerra do Golfo, em 1991, e após o furacão Katrina, em 2005, a reserva também foi utilizada durante a guerra na Líbia, em 2011, para reduzir o impacto da interrupção da produção de petróleo no país sobre o mercado de combustíveis.

Nesses três episódios, o volume retirado foi relativamente pequeno em comparação com a quantidade armazenada.

Durante a Guerra do Golfo, por exemplo, as autoridades americanas autorizaram a retirada de cerca de 33,75 milhões de barris, mas apenas 17,3 milhões foram efetivamente utilizados.

Após o furacão Katrina, foram retirados 20,8 milhões de barris. Durante a crise na Líbia, foram 30,6 milhões.

As maiores retiradas, de longe, ocorreram nos últimos quatro anos, principalmente após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022.

Em março daquele ano, o mercado petroleiro entrou em um período de turbulência, e o preço do barril chegou a US$ 139 (cerca de R$ 721), uma alta de 70% em relação ao ano anterior.

Diante desse cenário, o governo de Biden autorizou a retirada de 180 milhões de barris da Reserva Estratégica de Petróleo, a maior da história, na tentativa de conter a alta do preço do petróleo.

Em março de 2022, a Reserva Estratégica de Petróleo armazenava 566 milhões de barris. Em junho de 2023, o volume havia caído para 347 milhões, segundo dados oficiais do Departamento de Energia dos EUA.

A partir de então, as autoridades americanas iniciaram a reposição gradual da reserva, que em fevereiro deste ano armazenava 415 milhões de barris de petróleo.

A guerra do Irã

Donald Trump faz um discurso em um púlpito. Ele veste terno azul, camisa clara e gravata azul-clara

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Legenda da foto, A guerra contra o Irã, iniciada pelos EUA e por Israel, também levou à liberação de petróleo da reserva estratégica americana

Em 28/2 deste ano, os EUA e Israel iniciaram a guerra contra o Irã.

Em resposta, o governo iraniano fechou o estreito de Ormuz ao tráfego marítimo. Pela rota passam normalmente 20% do petróleo mundial e 20% do gás natural liquefeito exportado.

O fechamento dessa passagem estratégica voltou a abalar o mercado mundial de petróleo, levando vários países a recorrer a suas reservas estratégicas.

Em 11/3, a Agência Internacional de Energia (AIE) anunciou que seus 32 países-membros — entre eles, os EUA — haviam concordado em liberar 400 milhões de barris de suas reservas estratégicas, a maior operação coordenada desse tipo na história da organização.

A AIE reúne países industrializados e foi criada em 1974, em resposta à crise provocada pelo embargo de petróleo imposto pelos países árabes durante a Guerra do Yom Kippur.

Nos EUA, a Reserva Estratégica de Petróleo armazenava 415 milhões de barris de petróleo em fevereiro deste ano, pouco antes do início da guerra contra o Irã. Nos últimos seis meses, o volume caiu 117 milhões de barris, para os atuais 298 milhões.

Trump anunciou que a reposição da Reserva Estratégica de Petróleo começará "em breve", com petróleo venezuelano.

Mas as autoridades venezuelanas ainda não informaram publicamente quais campos serão explorados nem quais empresas ficarão responsáveis pela operação.

Segundo a imprensa americana, o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, deve viajar à Venezuela nesta semana para concluir e anunciar alguns dos acordos.