Os animais que você pode vencer em uma corrida — e os que são invencíveis

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- Author, Richard Fisher
- Role, BBC Future
- Published
- Tempo de leitura: 12 min
Há alguns anos, eu estava acampando nos Estados Unidos, quando um urso-negro passou por acaso nas proximidades.
Enquanto o observava passeando pelo acampamento, fiquei imaginando: se fosse necessário, eu conseguiria correr mais do que ele?
Pesquisando a velocidade dos ursos posteriormente, a resposta foi clara: certamente, não.
Sair correndo pode despertar uma reação de perseguição e, por isso, não é algo aconselhável. E os ursos-negros podem atingir até 48 km/h.
Desde então, especialmente quando saio para me exercitar em Londres, fico me perguntando: quais animais eu posso vencer em uma corrida? E se eu encontrasse um esquilo ou texugo particularmente agressivo?
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Noé teria sido o único que poderia ter promovido uma Olimpíada do reino animal. Mas os cientistas avaliaram os recordes de velocidade de centenas de criaturas, desde esquilos e texugos até aranhas, lagartos, roedores, aves, grandes mamíferos e muitos mais.
Os dados mostram que existem muitas surpresas interessantes.
Qual animal seria o nosso mais ferrenho competidor? E quem dentre eles poderia travar uma boa corrida contra os seres humanos mais rápidos do mundo?
Massa muscular
Ao longo das décadas, os cientistas avaliaram os recordes de velocidade dos animais utilizando diferentes métodos, alguns mais precisos (e éticos) que outros.
Nos anos 1920, um naturalista dirigiu seu carro ao lado de antílopes-americanos, a espécie animal terrestre mais rápida da América do Norte, disparando tiros no ar para que eles continuassem se movendo.
E, na década de 1980, pesquisadores perceberam que poderiam colocar animais menores, como ratos, em esteiras.
Atualmente, tecnologias como o GPS tornam esta tarefa mais fácil, especialmente para registrar animais no seu habitat natural, em velocidades realistas.
Um estudo recente acompanhou guepardos em ambiente selvagem e demonstrou que eles podem atingir 93 km/h.
As avaliações anteriores eram baseadas em filmagens ou, em um dos casos, induzindo-se artificialmente o guepardo a perseguir um pedaço de carne segurado por um operador com cronômetro, dirigindo um veículo 4x4.
Mas, em certos casos, métodos simples também funcionaram bem.
Em outro estudo recente, pesquisadores avaliaram o que pode ser a aranha mais rápida do mundo, a aranha-caçadora australiana, simplesmente cutucando-a e gravando em vídeo ao lado de uma régua.
Sua velocidade média foi de cerca de 7 km/h, mas seu recorde no sprint foi desconcertante. Ela atingiu a marca de 13 km/h.

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Ao longo do tempo, pesquisadores compilaram essas medições científicas disparatadas em bancos de dados maiores.
Um destes estudiosos é a bióloga Myriam Hirt, agora no Centro Alemão de Pesquisa da Biodiversidade Integrativa em Leipzig. Ela compilou as velocidades de corrida de cerca de 350 animais terrestres.
Em 2017, Hirt e seus colegas pesquisaram como a massa corporal dos animais afeta sua velocidade. Em princípio, animais maiores, com maior massa muscular, deveriam poder correr mais rápido.
"Faz sentido quando você comece a pensar nisso, mas os dados mostram claramente que não é assim que funciona", segundo ela. "As espécies maiores não são as mais rápidas e ninguém sabia por quê."
Ela e seus colegas concluíram que a massa corporal que eles carregam impede os animais maiores de atingir suas velocidades máximas hipotéticas.
"Você precisa de mais tempo para fazer um corpo grande se mover à mesma velocidade de um pequeno" explica Hirt, da mesma forma que os aviões grandes precisam de pistas de decolagem mais longas. (Qualquer pessoa que já tenha jogado Mario Kart saberá que o minúsculo Toad acelera com mais rapidez que o volumoso Donkey Kong.)
A largada mais lenta significa que os grandes animais começam a se cansar antes de atingirem seu possível limite de velocidade.
"Você só tem uma quantidade limitada de energia disponível para aceleração", prossegue a bióloga. "Em algum momento, você simplesmente desaba, pois não há mais energia nos seus músculos."
A lenta aceleração dos grandes animais também significa que você pode ser capaz de vencer alguns deles em uma corrida, especialmente em distâncias curtas.
Um elefante-africano, por exemplo, pode atingir até 35 km/h, mas eles são inicialmente mais lentos que os seres humanos.

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Outro banco de dados de velocidade dos animais, compilado em 2020, integrou estatísticas sobre a aceleração animal. Ele indica que o elefante-africano atingiria sua velocidade máxima em cerca de 7,5 segundos.
Um cálculo rápido sugere, portanto, que ele correria 100 metros em cerca de 14 segundos. Duvido que eu consiga igualar esta marca. Mas, segundo o website de corridas Marathon Handbook, ela poderia ser batida por adultos bem treinados.
O velocista olímpico jamaicano Usain Bolt provavelmente poderia vencer com facilidade o elefante-africano, mas mesmo ele seria batido por muitos outros animais.
Se compararmos simplesmente as velocidades máximas de sprint, sem considerar a variável de massa e aceleração, a maior velocidade atingida por Bolt ao estabelecer seu recorde mundial foi de cerca de 44 km/h.
Este índice é maior que a velocidade máxima de um rinoceronte-branco (40 km/h), mas inferior à do urso-pardo ou polar (48-50 km/h). E muitos outros animais atingem velocidades ainda maiores.

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Os corredores de velocidade mais famosos são o guepardo (93 km/h) e o avestruz, que chega a atingir 82,8 km/h. Mas existem outros menos conhecidos.
Sou um corredor magro e esguio. Por isso, imaginei que a girafa pudesse ser meu competidor animal mais próximo.
Mas fiquei surpreso ao saber que ela pode atingir cerca de 57-60 km/h. Em uma corrida de velocidade, ela venceria facilmente a mim e a Bolt.
Outros animais bastante rápidos são o alce (55,4 km/h) e a zebra (70,6 km/h). Já a rena pode atingir velocidades de 80 km/h, o que certamente deixará o Papai Noel muito satisfeito.
Aceleração ou resistência?
E quanto às distâncias maiores?
A corrida de velocidade é uma atividade anaeróbica, que exige as chamadas fibras musculares de contração rápida, segundo o ex-corredor olímpico britânico dos 1,5 mil metros, Andy Baddeley. Ele é um dos fundadores do portal The Running Channel, que oferece conselhos e dicas para corredores.
"As fibras de contração rápida são mais explosivas, mas se cansam muito facilmente", explica ele. "Elas são mais associadas ao levantamento de peso e às corridas de velocidade."
"Já as fibras de contração lenta se restabelecem com menos rapidez e são menos explosivas, mas podem continuar por muito tempo sem sofrer fadiga."
Ou seja, o corredor de velocidade pode acelerar rapidamente e atingir velocidades mais altas, mas seus músculos corporais treinados para a explosão sofrerão fadiga rapidamente em distâncias maiores.
Baddeley explica esta diferença utilizando sua própria fisiologia de corrida. Ele calcula que, na época em que disputava corridas de média distância nos Jogos Olímpicos, conseguia correr os 100 metros em cerca de 11,7 segundos.
Em comparação com os animais, o tempo de Baddeley é próximo ao de um gorila, mas está abaixo dos corredores de elite da modalidade.
Ainda assim, ele acredita que conseguiria manter uma disputa acirrada com um corredor de velocidade de elite por 500 metros. E certamente venceria qualquer sprinter, incluindo o mais rápido do mundo, na sua especialidade de 1,5 mil metros, devido à capacidade do seu corpo de manter a velocidade por mais tempo.

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O mesmo raciocínio se aplica ao reino animal.
O estudo de guepardos com colar de GPS, por exemplo, demonstrou que eles normalmente mantêm sua velocidade máxima por dois segundos e a distância típica de caça é de menos de 200 metros. Ou seja, eles são corredores de velocidade, não atletas de resistência (ou pelo menos não têm a inclinação ou a necessidade de correr por distâncias maiores).
Por outro lado, os antílopes-americanos, que são presas de predadores, foram avaliados correndo por 11 km em 10 minutos, a uma velocidade média de 65 km/h.
Parafraseando Hirt e relembrando um antigo provérbio, "para o predador, é uma refeição, mas, para a presa, é a sua vida. Por isso, a pressão pela rapidez é muito maior sobre a presa que sobre os predadores".
De forma geral, os seres humanos são mais adaptados para corridas de resistência a longa distância do que para o sprint. Isso se deve à nossa biomecânica e ao fato de que temos poucos pelos e suamos.
Biólogos evolutivos especulam que essas adaptações teriam evoluído para nos ajudar a buscar e cansar as presas ao longo de vários quilômetros.
Por isso, será que poderemos algum dia conquistar a medalha de ouro em uma corrida de longa distância contra outros animais? Bem, isso depende.
Por um lado, não existem muitos dados científicos para pesquisar. Afinal, os animais não humanos não têm o mesmo desejo de se esforçar para serem os melhores na maratona (42,2 km).
Em laboratório, poderia ser antiético forçá-los a isso. E, no ambiente selvagem, muitos iriam parar ou reduzir a velocidade antes da linha de chegada.

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Para conseguirmos algumas indicações, existem bancos de dados científicos que compilaram as "velocidades de percurso" dos animais: o ritmo aeróbico sustentado que os animais praticam habitualmente e de forma confortável ao longo de distâncias maiores.
O urso-negro, por exemplo, possui velocidade de pico mais alta que a do ser humano, mas sua velocidade de percurso é menor, de 2,6 km/h.
Paralelamente, a velocidade de percurso do tigre é de 3,5 km/h, a do dromedário é de 6,3 km/h e a do lobo-cinzento é de 7,9 km/h.
Esta velocidade é menor do que a média dos corredores da Maratona de Londres, que é de cerca de 9 km/h. E também é muito menor que o recorde mundial de 1h59min30seg, estabelecido este ano pelo atleta queniano Sebastian Sawe, à velocidade média de 21 km/h.

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Mas a velocidade de percurso não é necessariamente a maior que os animais podem correr a longa distância. Ela equivale mais ao caminhar do ser humano.
Um urso provavelmente poderá atravessar uma longa distância com mais rapidez que a sua velocidade de percurso, mas é difícil dizer ao certo se ele se superaqueceria e ficaria cansado se corresse uma maratona à mesma velocidade que nós.
Ainda assim, apesar da falta de dados sobre a velocidade dos animais, podemos afirmar com segurança que os seres humanos não seriam os melhores corredores de maratona do reino animal, mesmo com as nossas adaptações para a corrida de resistência e a disposição mental de percorrer aquela distância.
Os cães da raça husky siberiano, por exemplo, podem percorrer distâncias muito grandes em alta velocidade. Considerando os tempos que eles podem atingir em corridas de trenó com a distância da maratona, eles poderiam bater o recorde mundial humano em mais de meia hora. E, sem o peso que carregam, provavelmente seriam ainda mais rápidos.
Um cavalo treinado para corridas de resistência também poderia vencer a maioria das pessoas na maratona. Mas isso também depende do terreno.
Todos os anos, no País de Gales, existe uma corrida entre seres humanos e cavalos em um trajeto montanhoso de cerca de 35 km. O cavalo normalmente é o vencedor, mas, às vezes, os seres humanos chegam em primeiro lugar.
Sabemos ainda menos sobre a nossa posição no ranking dos animais em distâncias realmente longas, como a ultramaratona e além. E, também aqui, os huskies provavelmente nos venceriam.

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A Corrida de Cães de Trenó da Trilha de Iditarod, no Estado americano do Alasca, cobre uma distância de 1,6 mil quilômetros.
É uma corrida em equipes, mas alguns cães percorrem a distância completa. E o recorde do percurso é de sete dias e 14 horas.
Em termos de comparação, o recorde da corrida restrita a convidados da trilha de Iditarod (uma competição com comprimento similar nas condições do Alasca que alguns seres humanos completam a pé) é de 19 dias, 9 horas e 38 minutos.
Ainda assim, provavelmente não existem muitos animais capazes (ou mesmo com disposição) de correr ultramaratonas. Além da nossa resistência fisiológica, o cérebro humano é o nosso próprio superpoder nessas distâncias.
Um exemplo é a Corrida da Autotranscendência de 3,1 Mil Milhas, uma prova de 4.989 km em torno de um único quarteirão no Queens, em Nova York (Estados Unidos).
O recordista atual correu por mais de 40 dias para completar a corrida, com intervalos noturnos de seis horas. Ele atingiu a velocidade média de cerca de 6,9 km/h enquanto estava em movimento.
"Em última análise, a corrida de longa distância se resume em saber: Você aceita o desconforto? Está sofrendo?", afirma Baddeley.
"Existe ainda aquela capacidade de ter acesso a outro sistema de energia no final de uma corrida longa, enfrentando a dor e ainda dar um sprint perto da linha de chegada. Não sei se você observaria isso no mundo animal."
Mas, infelizmente, isso não me ajudaria se eu estivesse correndo e encontrasse um esquilo ou texugo particularmente mal humorado.
Será que eu conseguiria vencê-los na corrida, se eles viessem atrás de mim? Provavelmente não.
Ao contrário dos animais maiores, como os elefantes, eles são suficientemente pequenos para atingir seu limite de velocidade em uma ou duas passadas. E esta velocidade (cerca de 30 km/h) já é maior que o meu limite.
Talvez eu precise treinar com um pouco mais de afinco.
Com qual animal você se identifica ao correr?
Muitos corredores podem não saber ao certo sua maior velocidade de corrida, mas talvez saibam seu melhor índice pessoal ao longo de 5 km. Esta é a distância de um parkrun (corridas comunitárias em parques públicos, bastante populares na Europa e nos EUA), evento gratuito que conta com mais de 12 milhões de participantes registrados em todo o mundo.
Se você correr 5 km em 40 minutos, atingirá a velocidade máxima de um rato-do-bosque. E, se completar a mesma distância em 30 minutos, de um rato comum ou hamster.
Com 25 minutos, você igualaria um camundongo doméstico ou uma iguana-marinha. Aos 20 minutos, uma doninha ou uma marmota.
Já o ex-atleta olímpico Andy Baddeley, que já foi recordista da corrida no parque (13 minutos e 48 segundos), se identifica com o Potorous tridactylus, um pequeno marsupial de nariz comprido que vive na Ásia e na Austrália.
A boa notícia para os corredores de competição é que estes são os tempos máximos de sprint dos animais, que eles não conseguiriam manter por muito tempo. Ou seja, você provavelmente os venceria na linha de chegada.
As velocidades dos animais mencionadas nesta reportagem foram principalmente extraídas dos estudos intitulados "A general scaling law reveals why the largest animals are not the fastest" (Hirt et al, 2017) e "The body size and temperature dependence of organismal locomotion" (Cloyed e Dell, 2020).
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Health.
























