O que reação de Trump à vitória de Lula diz sobre relação entre Brasil e EUA

    • Author, Luis Barrucho
    • Role, Serviço Mundial da BBC
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Diferentemente do que ocorreu nas últimas eleições presidenciais brasileiras, a Casa Branca ainda não havia reconhecido publicamente a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) até esta segunda-feira (26/10).

Durante a tarde, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quebrou o silêncio e se manifestou sobre o resultado do pleito no Brasil. Em entrevista a jornalistas, ele afirmou, sem provas, que a eleição "pareceu ter fraude".

Trump também disse que a extensão de horário de votação, determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Cristiano Zanin "foi muito estranha", mas que gosta de Lula.

Questinado se faria algo a respeito da eleição, ele respondeu:

"Eu não estou governando o Brasil. Estou governando os Estados Unidos. Eu gosto do Lula. Tenho uma relação muito boa com ele, mas a prorrogação concedida foi muito estranha."

Um diplomata brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado disse que apesar das críticas feitas por Trump às eleições, a expectativa é de que não haja mudanças significativas na relação entre os dois países.

Segundo ele, o tom de Trump ao comentar o assunto indicaria que o presidente americano não deverá tomar nenhuma ação a respeito, pelo menos no curto prazo.

Com 100% das urnas apuradas, Lula teve 64 milhões de votos (51,79% dos válidos), contra 59 milhões de Flávio Bolsonaro (PL), ou 48,21%. O resultado foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 21h08 do domingo.

A demora do presidente americano em se manifestar sobre o Brasil contrasta com a rapidez de Washington em pleitos anteriores e com a reação de vários líderes estrangeiros, entre eles governantes de direita da América Latina, que já cumprimentaram Lula e reconheceram o resultado das urnas no Brasil.

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil disseram que a situação pode refletir uma "frustração política" e que o presidente americano "pode estar digerindo uma derrota política para um aliado".

Desde a volta de Trump à Casa Branca, uma série de presidentes de direita ou próximos a ele foram eleitos na região. A vitória de Lula interrompe essa sequência e frustra a expectativa de alinhamento regional atribuída a Washington.

Uma tradição interrompida

Em 2002, 2014, 2018 e 2022, Washington reconheceu o vencedor da eleição brasileira com rapidez.

Em 2022, Joe Biden parabenizou Lula por uma vitória em eleições "livres, justas e confiáveis", antes mesmo de Jair Bolsonaro admitir formalmente a derrota.

Na eleição anterior, em 2018, Trump ligou para Bolsonaro na noite do domingo do segundo turno. Em 2014, Barack Obama felicitou Dilma Rousseff no dia seguinte à votação. Em 2002, George W. Bush telefonou a Lula cerca de um dia depois da eleição.

"Sim, é muito significativo. Ele deveria ter sido o primeiro", afirmou à BBC News Brasil Christopher Sabatini, pesquisador sênior para América Latina do centro de estudos Chatham House, em Londres.

"Também é significativo que todos os outros (países) estejam correndo para reconhecer o resultado. É um sinal claro para Flávio Bolsonaro e para a Casa Branca de que 'nós reconhecemos, e vocês, onde estão?'. Estão tentando encurralá-lo [Trump]", diz Sabatini.

Para Sabatini, a demora também pode refletir frustração política.

"Ele [Trump] recebeu os filhos [de Bolsonaro], designou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Então ele de fato endossou a chapa Bolsonaro", disse.

A designação foi anunciada pelo Departamento de Estado em 28 de maio, um dia depois de Flávio e Eduardo Bolsonaro se reunirem com Trump na Casa Branca.

Segundo o pesquisador, Trump chegou a se gabar de ter levado nove presidentes ao poder na América Latina. "Acho que ele imaginava que este seria o décimo e o maior prêmio."

Anthony Pereira, diretor executivo do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Tulane, nos EUA, diz que Washington esperava uma aproximação do Brasil com a agenda de Trump.

"Acho que a expectativa é de que o Brasil aderiria ao Escudo das Américas, estaria negociando a mineração crítica, seria um seguidor da linha do Trump, como vários governos da região agora, como Colômbia, Chile e Peru", disse.

O Escudo das Américas é uma coalizão de segurança lançada por Trump em março, na Flórida, para combater cartéis e narcotráfico e, segundo analistas, conter a influência da China. O Brasil ficou de fora.

"E o fato de que isso não aconteceu vai ser uma decepção para o governo."

Pereira vê ainda efeitos indiretos na política americana, às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato. "É um sinal de que a estratégia do governo Trump não teve 100% de sucesso e pode contribuir para uma derrota provável na Câmara para o Partido Republicano e, depois, no Senado."

Por que a demora de Trump

Na avaliação de Sabatini, há correntes distintas dentro da administração americana. De um lado está o secretário de Estado, Marco Rubio, crítico de Lula e da política externa petista por considerá-la pouco dura com Cuba e Venezuela. De outro, Trump, que costuma admirar líderes vistos como politicamente fortes.

Sabatini diz que Trump "reconhece pessoas que têm jogo, carisma, que são vencedoras", e cita como exemplo o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, apesar de serem "opostos totais". Trump o chamou de "lunático comunista" durante a campanha e o elogiou depois, na Casa Branca. Já com os derrotados, a postura é outra: "Trump odeia perdedores."

Para o pesquisador, o presidente americano pode estar digerindo uma derrota política de um aliado, mas também pode enxergar em Lula atributos que respeita. Ele diz que, "em muitos aspectos", Lula é "mais parecido com Trump" do que o americano "gostaria de reconhecer", porque saiu da prisão e voltou para vencer a Presidência.

"Esta é a minha análise preferida agora: não acho que ele vá querer admitir que isso é uma derrota. Então talvez simplesmente engula."

Pereira também aposta no pragmatismo. "A leitura do governo Lula, e não acho equivocado, é de que Trump é pragmático, não é tão ideológico como o Departamento de Estado."

Para ele, apesar das tensões, prevalecem interesses econômicos que favorecem a cooperação. "Não vejo uma possibilidade realista de a Casa Branca reverter o resultado da eleição, então a tendência seria negociar com o governo que existe no Brasil."

O que Lula disse sobre os EUA

No discurso da vitória, Lula evocou uma frase do cantor Chico Buarque para defender uma política externa independente, dizendo que o Brasil não deveria "falar grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos".

"A gente falava igual com todo mundo", completou. Ao comentar a mobilização na avenida Paulista, disse que o Brasil "não aceita ser quintal de ninguém". Criticou também a "intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais", sem citar governos.

No encerramento, em tom de brincadeira com aliados de campanha, entre eles André Janones, a quem chamou de "general", afirmou: "Duvido que a Rússia, a China ou os Estados Unidos tenham um exército vitorioso como o exército da democracia deste país."

Para Sabatini, ainda não está claro que caminho Lula vai escolher. A questão é se o governo vai "dobrar a aposta" e ser "muito mais antiamericano" ou usar o fortalecimento político obtido nas urnas para buscar um novo patamar de relação com Washington. "Pode ir para qualquer lado."

Canais diplomáticos seguem abertos

Ao longo desta segunda-feira, outro diplomata ouvido pela BBC News Brasil minimizou a falta de uma mensagem de reconhecimento do governo americano em relação às eleições no Brasil até o momento.

Segundo ele, com ou sem reconhecimento, os canais diplomáticos entre os dois países continuam ativos. De acordo com o diplomata, apesar do peso simbólico de uma mensagem de reconhecimento do resultado eleitoral, do ponto de vista prático, não haveria problemas em não haver uma mensagem de Trump sobre o assunto.

Uma das provas de que a relação entre os dois países está mantida é a viagem, na próxima semana, do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, à cúpula de chanceleres do G20, grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo, que será realizada nos Estados Unidos, em novembro.

Nos bastidores, assessores do presidente Lula já trabalhavam com a perspectiva de que o governo Trump pudesse demorar para reconhecer o resultado das eleições ou até mesmo não fazê-lo caso Lula vencesse.

Segundo esses assessores, um eventual não reconhecimento do resultado seria resultado da ação de uma ala mais radical dentro do Departamento de Estado com vínculos com a família Bolsonaro.

O impacto sobre Flávio Bolsonaro e o que muda para o Brasil no mundo

Os especialistas avaliam que um eventual gesto de Trump teria peso para o campo bolsonarista.

Sabatini diz que, se Trump reconhecer o resultado, Flávio terá de recuar. Ele conta que um ex-embaixador americano no Brasil lhe disse recentemente que qualquer contestação dependeria, em grande medida, da posição da Casa Branca.

"Eles não vão se arriscar se Trump basicamente reconhecer o resultado."

Pereira acredita que Brasil e EUA têm incentivos para manter uma relação funcional. "Não sei se o governo Trump vai aceitar facilmente, mas deve aceitar o resultado e tentar negociar com o Brasil porque, apesar das divergências, tem muitos interesses e negócios em comum."

Ele cita empresas com forte presença nos dois países. "A JBS, que também tem muitos negócios nos EUA, não tem interesse nessa guerra entre Brasil e EUA. Vai ter vozes nos dois países tentando acalmar os ânimos."

Sabatini acredita que Lula tentará reposicionar o Brasil como ator de equilíbrio em um cenário internacional mais fragmentado. "Ele vai ver isso como um momento de equilíbrio, para atuar como equilibrador entre o Sul Global, a Casa Branca e até a Europa."

A vitória também favorece o acordo Mercosul–União Europeia, que um governo Bolsonaro "provavelmente teria torpedeado".

Em relação à China, Sabatini prevê uma postura ativa, mas cautelosa em temas sensíveis para Washington, como terras raras e investimentos chineses.

Na América Latina, ele não vê necessariamente um choque entre Lula e os líderes conservadores.

"O tradicional sentimento de solidariedade na América Latina sempre persistiu, para frustração de gente como Rubio." Segundo ele, os governos de direita eleitos nos últimos anos, "não são todos iguais".

Sabatina acredita que Lula poderá encontrar convergência com Keiko Fujimori (Peru), José Antonio Kast (Chile) e Rodrigo Paz (Bolívia). "Acho que será difícil com De la Espriella e certamente com Milei, que é, digamos, bombástico e apostou tudo nesta eleição."

Milei ainda não se pronunciou sobre o resultado.