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Carta de Flávio: quem são Rui Barbosa, de Gaulle e outros líderes da América Latina citados
- Author, Daniel Gallas
- Role, da BBC News Brasil em Londres
- Published
- Tempo de leitura: 6 min
Na carta aberta ao povo brasileiro que divulgou na quarta-feira (28/10), o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL derrotado na eleição de domingo, afirmou que pretende liderar a oposição no Brasil a partir dos Estados Unidos.
Inicialmente Flávio Bolsonaro se apresentou como "verdadeiro presidente eleito do Brasil", mas 23 minutos depois ele editou a postagem na mídia social em que havia publicado a carta e alterou a redação para "líder do Brasil".
O documento foi divulgado horas após a chegada do senador aos EUA — uma viagem feita depois que seu passaporte havia sido cancelado pela Polícia Federal, em meio a investigações sobre ele e o advogado Willer Tomaz, em um caso que envolve suspeitas de lavagem de dinheiro.
A carta de Flávio Bolsonaro faz referências a diversas personalidades históricas que precisaram liderar do exterior a oposição a um governo — papel que ele diz que caberá a si de agora em diante, contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que foi reeleito no domingo.
O senador mencionou Rui Barbosa, Charles de Gaulle, José Marti, Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado.
"Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele", escreveu Flávio Bolsonaro. "Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa."
Confira abaixo as personalidades históricas citadas na carta do candidato derrotado do PL.
Rui Barbosa
O que Flávio Bolsonaro disse: "Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade".
Rui Barbosa (1849-1923) foi um jurista, político e diplomata brasileiro — considerado uma das figuras mais importante do começo da República no Brasil.
Ele ficou famoso por sua defesa da Constituição, das liberdades civis e do Estado de Direito — e ganhou projeção internacional por seus discursos na Conferência de Haia de 1907, que discutiu mecanismos internacionais para manter a paz entre os países. Ele ganhou o apelido de "Águia de Haia".
Durante o governo de Floriano Peixoto (1891-1894) — o segundo da era da República —, Rui Barbosa tornou-se um dos principais críticos do presidente. Ele defendia que, após a renúncia do primeiro presidente, Deodoro da Fonseca, a Constituição exigia a realização de novas eleições, e que Floriano havia permanecido no poder de forma inconstitucional. Também atuou na defesa jurídica de opositores presos durante a repressão à Revolta da Armada, um levante de setores da Marinha contra Floriano Peixoto.
Em 1893, Rui Barbosa passou a sofrer perseguição do governo por suas posições. Para evitar a prisão, refugiou-se inicialmente na representação diplomática do Chile e depois deixou o Brasil, vivendo em Buenos Aires, Lisboa, Paris e Londres.
Do exterior, continuou escrevendo contra o que considerava abusos do governo Floriano, retornando ao país apenas em 1895.
Charles de Gaulle
O que Flávio Bolsonaro disse: "Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país."
Charles de Gaulle (1890-1970) foi um general e presidente da França, considerado uma das figuras mais importantes da resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial.
Em junho de 1940, após a derrota militar francesa para a Alemanha, de Gaulle recusou-se a aceitar a rendição do país e a colaborar com o regime de Vichy, que passou a governar parte da França sob influência alemã.
Exilado em Londres, de Gaulle lançou um apelo transmitido pela BBC, conclamando os franceses a continuarem a luta contra a Alemanha nazista. A partir do Reino Unido, o general organizou o movimento conhecido como França Livre, reunindo apoiadores da resistência francesa espalhados pelo mundo. Ele foi condenado à morte à revelia pelas autoridades de Vichy.
Quando a França foi libertada dos nazistas em 1944, ele foi recebido com festa em Paris e assumiu a liderança do governo provisório francês. Entre 1959 e 1969, foi presidente do país.
José Martí
O que Flávio Bolsonaro disse: "José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York."
José Martí (1853-1895) foi um poeta, jornalista e político cubano, considerado o principal herói da luta pela independência de Cuba, proclamada em 1902. Foi perseguido na juventude por fazer oposição ao domínio colonial da Espanha sobre a ilha.
Grande parte de sua atuação política ocorreu fora de Cuba, especialmente em Nova York, onde viveu por cerca de 15 anos. A partir dos EUA, Martí escreveu artigos, fez discursos, arrecadou recursos e trabalhou para unir grupos de exilados cubanos em torno da causa da independência. Em 1892, ele fundou no exílio o Partido Revolucionário Cubano, criado para organizar a luta contra o domínio espanhol.
Martí coordenou esforços em favor da independência e ajudou a planejar a insurreição que seria iniciada em 1895. Naquele mesmo ano, retornou a Cuba para participar da luta e morreu em combate na batalha de Dos Ríos, tornando-se um dos maiores símbolos da nação cubana.
Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado
O que Flávio Bolsonaro disse: "Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática".
Juan Guaidó é um político venezuelano que concorreu contra o então presidente Nicolás Maduro em uma eleição em 2019. Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela, alegando que a vitória de Nicolás Maduro havia sido ilegítima.
Após anos de disputa política e crescente pressão do governo, Guaidó deixou o país em 2023. No exterior, especialmente nos EUA, continuou denunciando o governo Maduro e defendendo eleições livres.
Edmundo González é um diplomata e político venezuelano que se tornou o principal candidato da oposição na eleição presidencial de 2024, novamente contra Maduro. Após o pleito, cuja legitimidade foi contestada pela oposição e por diversos governos estrangeiros, González deixou a Venezuela e passou a viver na Espanha. Do exterior, continuou reivindicando a vitória eleitoral da oposição e atuando contra o governo de Maduro.
María Corina Machado é uma das mais conhecidas líderes da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz do ano passado. Impedida pelas autoridades venezuelanas de concorrer à Presidência em 2024, ela apoiou a candidatura de Edmundo González. A maior parte da sua atuação aconteceu dentro da Venezuela, muitas vezes em locais secretos, e não no exílio. Ela deixou a Venezuela em dezembro de 2025, para receber o Nobel da Paz, e só retornou neste mês, após temporadas nos EUA e no Panamá.